Jesus subiu para o céu

Jesus subiu para o céu 07.05.16

Dom Caetano Ferrari – Bispo de Bauru / SP

Neste domingo da Ascensão do Senhor ao céu, Lucas conta no Evangelho de hoje – Lc 24, 46-53 – que Jesus, reunindo os discípulos, recorda-lhes do núcleo central da Escritura que o Cristo deverá morrer e ressuscitar ao terceiro dia e, no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, a começar de Jerusalém. Diz-lhes, ainda: “Vós sereis testemunhas de tudo isso. Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu”. Depois, Jesus leva-os para fora da cidade e, erguendo as mãos, abençoa-os. Enquanto os abençoa, afasta-se deles e sobe para o céu. Termina assim a missão de Jesus neste mundo e inicia a missão da Igreja. Os discípulos voltam para Jerusalém e, cheios de alegria, esperam o Espírito Santo, permanecendo em oração.

Pois bem, caro leitor e leitora, supliquemos ao Espírito Santo para que venha fixar em nós a compreensão e a aceitação de tudo aquilo que Jesus ensinou e está consignado nos santos Evangelhos, ou seja, o conjunto de verdades, conceitos e preceitos que permanecem fundamentais para esta nossa vida rumo à vida eterna, plena e feliz.

Gosto de ouvir e ler um filósofo, que frequenta a nossa mídia, a falar criticamente sobre essa nossa época do politicamente correto e a contestar o ideário dos chamados pensadores modernistas, liberalistas, relativistas, ateus laicistas. Ele também não deixa de satirizar os seguidores dessa corrente de pensamento, que ele costuma chamar de os “inteligentinhos de esquerda ou de direita” ou os “doces relativistas”. Como contraponto a este filósofo, cito aqui, como entre parêntesis, o que afirma um dos expoentes da cultura do relativismo, um psicanalista frequente também na mídia. Li dele, por exemplo, o seguinte: “A cultura pela qual eu luto tenta propor a menor gestão das vidas possível. É inspirada por um grande valor (o maior talvez) da cultura burguesa (desde os libertinos do século 17 até hoje) – a ideia de que na vida privada, cada um pode encontrar os prazeres de sua vida livremente – óbvio, com o consentimento dos que o acompanham”. Isso porque, continua dizendo, ninguém deve se comportar conforme algum código de comportamento que vale para sempre, pois não há ideias e valores como verdades eternas, tudo não passa de construções humanas, históricas, mutáveis com o tempo. Fecha-se o parêntesis. Volto ao filósofo, que gosto de ler e que critica essa cultura burguesa. Acho bom dizer que este filósofo nem é cristão, é judeu. Ele acaba de fazer um comentário curioso sobre as reações de muita gente da sociedade, os inteligentinhos, que se puseram a criticar veementemente os deputados que no 17 de abril votaram no processo de impeachment, com votos em nome de Deus, da família, da religião, demonstrando nojo para com eles.

A hipótese que ele levanta é de que o nojo desses inteligentinhos vai além da crítica sobre a qualidade dos nossos políticos. O nojo é na verdade, segundo ele, nojo de Deus, da religião e da família mesmo. Essas pessoas, que se aproximam do chamado “ateísmo orgânico”, pois seriam escolarizadas e instruídas e teriam chegado por si mesmas à conclusão de que deuses e religiões são repetições banais das mesmas crenças ao longo do tempo, julgam que gente religiosa é gente ignorante ou inculta que não entende de nada da realidade. Então, para essa gente que se considera culta é difícil ter de conviver com a gente da fé que considera estúpida. Segundo nosso filósofo, essa “gente culta” considera a família como um “nojo”, “um lugar de opressão patriarcal”, “coisa de gente heteronormativa”. Mulher “recatada e do lar” é coisa a ser repelida, fruto da tirania sobre a liberdade da mulher. Quanto a Deus e à religião, então, é “nojo” pelo que foi dito acima. Como conclusão de sua hipótese, ele ousa dizer que essa gentinha até seria capaz de votar em nome de assassinos revolucionários, mas em nome de Deus, da religião e da família, jamais.

Pois bem, é bom ter presente o que nos ensina a nossa santa Igreja. Por exemplo, o São João Paulo II, na sua Carta Encíclica “Fides et Ratio” (Fé e Razão), lembra que há muitas verdades: a verdade da realidade que as ciências decifram, a verdade da inteligência com sua crença na razão que é capaz de superar o contingente para alcançar o infinito, a verdade do espírito que leva ao amor mais intenso possível. Há também as verdades da fé que são eternas: Deus é amor, criador de todas as coisas e do ser humano feito à sua imagem e semelhança e doador de um projeto de vida que o realiza plenamente. Ensina também que o homem é aquele que está sempre procurando a verdade, sobretudo nas pesquisas científicas, mas também no tocante às coisas que dizem respeito às questões últimas da vida. Mas, o homem é aquele que vive também de crenças, que adquire não só filosofando, mas as tem mediante a fé religiosa. Para nós, Jesus Cristo é a verdade plena: “Aquilo que a razão humana procura ‘sem o conhecer’, só pode ser encontrado por meio de Cristo: de fato, o que nele se revela é a ‘verdade plena’ de todo o ser que, nele e por Ele, foi criado e, por isso mesmo, nele encontra a sua realização” (Fides et Ratio, 34).

O Papa Bento XVI, constatando que no atual contexto social e cultural predomina uma generalizada tendência em relativizar a verdade, decidiu escrever a Carta Encíclica “Caritas in Veritate” (A Caridade na Verdade). Ele diz que essas duas palavras se complementam tal que se possa dizer “Caritas in Veritate” ou “Veritas in Caritate”. Então, diz que “defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade”. Diz ainda que a caridade na verdade “é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da ação moral”. Concluindo sua Encíclica, o Papa emérito afirma: “Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja”. Para os homens de hoje “O desenvolvimento implica atenção à vida espiritual, uma séria consideração das experiências de confiança em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega à providência e à misericórdia divina, de amor e perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo, de justiça e de paz”.

CNBB/Dom Caetano Ferrari – Bispo de Bauru

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