Missa em Santa Marta – Hino à alegria

«O bilhete de identidade do cristão é a alegria»: o «estupor» diante da «grandeza de Deus», do seu «amor», da «salvação» que doou à humanidade não pode deixar de levar o crente a uma alegria que nem sequer as cruzes da vida podem afetar, porque também na provação há «a certeza de que Deus está connosco».

Missa em Santa Marta Hino à alegria 24.05.16

Foi um verdadeiro hino à alegria a meditação do Papa Francisco durante a missa celebrada em Santa Marta na segunda-feira 23 de maio. A inspiração proveio da liturgia do dia. Em particular, o Pontífice quis reler o incipit do trecho tirado da primeira Carta de Pedro (1, 3-9) que – disse – pelo «tom exultante», a «alegria», o modo do apóstolo intervir «com toda a força» recorda o início do «Oratório de Natal de Bach». Com efeito, escreve Pedro: «Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que jamais poderá perecer, macular-se ou perder o seu valor. Herança guardada nos céus para vós que, mediante a fé, sois protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo».

São palavras em que se percebe «a maravilha diante da grandeza de Deus», diante da «regeneração que o Senhor – “em Jesus Cristo e por Jesus Cristo” – fez em nós». E é «um estupor cheio de júbilo, alegre»: logo a seguir, observou o Papa, no texto da carta encontra-se a «palavra-chave», ou seja: «Por esta razão estais repletos de alegria».

A alegria sobre a qual fala o apóstolo é duradoura. Por isso, explicou Francisco, ele acrescenta na epístola que, mesmo se por algum tempo somos obrigados a estar «afligidos pelas provações», aquela alegria do início «não nos será tirada». Com efeito, brota «daquilo que Deus fez em nós: regenerou-nos em Cristo e deu-nos uma esperança». Uma esperança – «a que os primeiros cristãos apresentavam como uma âncora no céu» – que, disse o Papa, é também a nossa. Dali provém a alegria. E de facto Pedro, concluindo a sua mensagem, convida todos: «Por isso exultai de alegria indizível e gloriosa».

De tudo isto, sublinhou o Pontífice, compreende-se como a alegria seja realmente a «virtude do cristão». Um cristão, especificou, «é um homem e uma mulher com a alegria no coração». Mais ainda: «Não existe um cristão sem alegria». Alguém poderia objetar: «Mas, Padre, eu já vi tantos!», pretendendo dizer com isto «não são cristãos: dizem que o são, mas não é assim, falta-lhe algo». Eis porque segundo o Papa «o bilhete de identidade do cristão é a alegria, a alegria do Evangelho, a alegria de ter sido eleitos por Jesus, salvos por Jesus, regenerados por Jesus; a alegria daquela esperança que Jesus espera por nós». E também «nas cruzes e nos sofrimentos desta vida», acrescentou, o cristão vive aquela alegria, experimentando-a de outra forma, isto é, com a «paz» que vem da «segurança que Jesus nos acompanha, está connosco». Com efeito, o cristão vê «crescer esta alegria com a confiança em Deus». Ele sabe bem que «Deus se lembra dele, que Deus o ama, que o acompanha, espera por ele. Isto é alegria».

Em paralelo com a este hino da alegria, a liturgia do dia propõe «outra palavra», que está ligada ao episódio do Evangelho de Marcos (10, 17-27) no qual se narra sobre o jovem «que se aproximou de Jesus para o seguir»: um «bom jovem» a ponto de conseguir «conquistar o coração de Jesus» o qual, lê-se, «olhou para ele» e «amou-o». Jesus fez uma proposta àquele jovem: «Falta-te uma coisa: vai, vende tudo o que possuis e dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me»: mas ao ouvir estas palavras ele «ficou abatido e afastou-se triste».

O jovem, realçou Francisco, «não foi capaz de abrir o coração à alegria e escolheu a tristeza». Mas porquê? A resposta é clara: «Porque possuía muitos bens. Era agarrado aos bens».

Aliás, o próprio Jesus tinha avisado «que não se pode servir a dois senhores: ou serves o Senhor ou serves as riquezas». Voltando sobre este tema já enfrentado numa homilia proferida há poucos dias, o Pontífice explicou: «as riquezas não em si são negativas», a maldade é «servir a riqueza». Em síntese, foi por isso que o jovem se foi embora triste: «Ele ficou abatido e afastou-se triste».

Este episódio esclarece a vida quotidiana «nas nossas paróquias, nas nossas comunidades, nas nossas instituições»: aqui com efeito, sublinhou o Papa, se «encontrarmos pessoas que se consideram cristãs e querem ser cristã, mas são tristes», significa que algo «não está bem». E é tarefa de cada um ajudar estas pessoas «a encontrar Jesus, a apagar aquela tristeza, para que possam rejubilar do Evangelho, possam ter esta alegria que é própria do Evangelho».

Francisco quis aprofundar mais este conceito central e ligar a alegria ao estupor que brota – como recordou são Pedro na sua carta – «diante da revelação, do amor de Deus, da emoção do Espírito Santo». Por conseguinte, podemos afirmar que «o cristão é um homem, uma mulher de estupor».

Uma palavra – «estupor» – que está presente também no final do trecho evangélico do dia, «quando Jesus explica aos apóstolos que aquele jovem tão bom não conseguiu seguí-lo, porque era apegado às riquezas e diz que é muito difícil que um rico, que uma pessoa apegada às riquezas, entre no reino dos Céus». Com efeito, lê-se ainda que eles, «mais surpreendidos», diziam: «E quem se pode salvar?».

O homem, o cristão – explicou o Papa – pode estar tão surpreendido perante tamanha grandeza e beleza, a ponto de pensar: «Eu não consigo. Não sei como fazer!». A resposta dada por Jesus, encarando os seus discípulos é consoladora: «Impossível aos homens – não conseguimos… – mas não a Deus?». Ou seja, podemos viver a «alegria cristã», o «estupor da alegria», e salvar-nos «do risco de viver apegados a outras coisas, às mundanidades», só «com a força de Deus, com a força do Espírito Santo».

Portanto, confidenciou o Pontífice no final da homilia, «peçamos hoje ao Senhor que nos dê o estupor perante ele, perante as muitas riquezas espirituais que nos concedeu; e juntamente com este estupor nos dê a alegria, a alegria da nossa vida e de viver com o coração em paz as numerosas dificuldades; e nos proteja da tentação de procurar a felicidade em muitas coisas que afinal acabam por nos entristecer: prometem tanto, mas nada nos darão!». Esta a conclusão: «lembrai-vos bem: um cristão é um homem e uma mulher de alegria, de alegria no Senhor; um homem e uma mulher de estupor».

L’Osservatore Romano

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