O culto dos santos, tesouro da fé desde a Igreja primitiva

Por que os católicos veneram outras pessoas e as declaram santas?

O culto dos santos, tesouro da fé desde a Igreja primitiva 27.05.16

Domínio Público

Sendo os santos amigos de Deus pela santidade, e nossos pela sua perfeita caridade, é justo que lhes tributemos os louvores que, sob esse duplo título, merecem; e que nos recomendemos à sua intercessão junto de Deus. É justo, visto que neles também se realiza, embora em grau bem menor, mas bem verdadeiro, o que disse de Si mesma, mas cheia do Espírito Santo, a mais santa que todos os santos, Maria Santíssima: “Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque fez em mim grandes coisas o Todo-Poderoso” (Lc 1,48-49).

Vê-se, por essas palavras inspiradas, que o louvor dos Santos redunda em louvor e glória de Deus, pois os santos são obras-primas da sua sabedoria, bondade e poder. Quando os louvamos, é a seu Autor que louvamos. De fato, sendo “Deus admirável em tudo o que é Santo” (Salmo) e sendo os santos, principalmente, obra de sua graça, Deus os ama de modo especial. Aliás, no preceito de “amar e honrar a Deus” está incluído o de amar e honrar o que Ele ama e honra; e segundo a ordem com a qual Ele o faz. E Deus ama, de modo especial, os seus santos: a Jesus Cristo como Homem, a Nossa Senhora, aos Anjos e a todos os Santos da glória; às almas do purgatório e aos que ainda pelejam neste mundo.

Eis porque, já nos dois primeiros séculos do cristianismo, encontramos registrada a prática de um culto prestado aos santos, especialmente aos heróis da fé, os mártires cristãos. É útil conhecer alguns documentos históricos dessa época, que atestam nas origens do cristianismo a prática do culto aos santos, cujas raízes se aprofundam no Antigo Testamento.

Documentos de autores da época

Bem no começo do século II (ano de 107), Santo Inácio Mártir, que foi discípulo direto dos Apóstolos e bispo de Antioquia, quando levado cativo a Roma para ser devorado pelas feras devido à sua fé católica, afirma em uma carta aos fiéis de Éfeso: “Sou vossa vítima e me ofereço em sacrifício por vossa Igreja” (Carta de Santo Inácio Mártir aos Efésios, nº 21). Este é um testemunho da fé da Igreja no valor do martírio sofrido pela fé.

Uma carta com data do ano 156, enviada pelos fiéis da comunidade cristã de Esmirna à comunidade da Frígia (Filomélia), dá notícia de reuniões religiosas e cultuais dos cristãos de Esmirna junto ao túmulo (“relíquias mais preciosas que o ouro e pedras preciosas” – diz a carta) de seu bispo e mártir, São Policarpo, no aniversário de seu martírio (cf. Padres Gregos, 5, 1029-1045). Já é prática da Igreja festejar o aniversário do triunfo dos mártires e dos santos.

Também Orígenes, que viveu no século II e no começo do III, atesta a fé da Igreja católica na intercessão dos santos: “O pontífice não é o único a se unir aos orantes; os anjos e as almas dos justos também se unem a eles na oração” (em “De Oratione”).

E em outro livro, Orígenes dá o fundamento dessa mediação: “Eles conhecem os que são dignos da amizade de Deus e auxiliam os que querem honrá-Lo” (em “Contra Celsum”). O mesmo ensinamento encontramos em São Cipriano, bispo de Cartago, martirizado no ano 256. Em carta ao papa São Cornélio, ele afirma: “Se um de nós partir primeiro deste mundo, não cessem as nossas orações pelos irmãos” (Carta 57).

As atas dos mártires

A mesma verdade é atestada pelas atas autênticas do suplício dos mártires. Assim, Santa Teodósia, em Tiro, pedia aos mártires, na hora em que iam para o suplício, que se lembrassem dela quando tivessem recebido a recompensa. E Santa Pantomina, em Alexandria, na hora de seu próprio martírio, prometeu ao soldado que a conduzia que ia pedir por ele quando estivesse junto de Deus (Em “Eusébio”, 1.6, c. 2; apud Mons. Lúcio Navarro, “A Legítima Interpretação da Bíblia”, pág. 542).

Também em Tarragona, o bispo mártir São Frutuoso, na hora do suplício, vendo que muitos fiéis faziam fila e lhe pediam a mesma graça de que não se esquecesse deles quando estivesse junto de Deus, falou a todos em voz alta: “Sim, devo ter em mente toda a Igreja espalhada pelo mundo, do Oriente ao Ocidente” (Acta Fructuosi, 1,7).

Por brevidade, fiquemos apenas com esses exemplos. Mas notemos que, transcorrido o tempo das perseguições sangrentas que banharam a terra com o sangue generoso dos heróis da fé, era normal que continuasse a ser lembrada com carinho a memória de sua santidade e, especialmente no dia do seu nascimento para a glória, como era chamado o seu “dies natalis”, recebesse culto especial.

Documentos arqueológicos

A fé dos cristãos dos três primeiros séculos nessa verdade está também registrada em muitas inscrições gravadas nos túmulos de santos cristãos e mártires da fé. Eis alguns exemplos:

  • No Cemitério de São Pânfilo: “Mártires santos, bons e benditos, ajudai a Ciríaco”;
  • No Cemitério de Aquileia: “Santos Mártires, lembrai-vos de Maria”;
  • Na Via Salária: “Genciano, fiel em paz… Que, em tuas orações, rogues por nós porque sabemos que estás em Cristo”;
  • No Cemitério de Gordiano: “Sebácio, doce alma, pede e roga por teus irmãos e companheiros”;
  • E no de São Calixto: “Vicência, pede em Cristo por Febe e seu esposo”.
  • No Cemitério de Priscila: “Anatólio… teu espírito descanse em Deus. Pede por tua mãe”.

Foi certamente com base em documentos com esses, e em tantos outros, que o estudioso Leibnitz – protestante, mas que estudou com afinco este assunto – nos deixou o seguinte e importante depoimento: “É certo que, já no segundo século da Igreja cristã, eram celebradas as festas dos mártires, e que em seus túmulos se reuniam assembleias religiosas” (em “Syst. Theol.”, p. 70).

Note-se que a expressão “assembleias religiosas” indica as “reuniões cultuais” dos primeiros cristãos para celebrar os Mistérios Eucarísticos, ou Santa Missa, que, na época das perseguições religiosas, era também celebrada sobre os túmulos dos mártires nas catacumbas. Eis a razão da “pedra d´ara” dos nossos altares, que contém relíquia dos mártires, e sobre a qual se celebra a Santa Missa.

A devoção ou culto dos santos, como é praticado na Igreja Católica –  e não nas superstições folclóricas –  teve sua origem na Igreja Primitiva ou Apostólica, dirigida ou pelos Apóstolos diretamente ou pelos santos bispos que os Apóstolos mesmos estabeleceram para substituí-los, e não tardiamente, no século IV, como falsamente pretendem algumas teses protestantes.

Eis os motivos de garantia da legitimidade da devoção aos santos. A única Igreja de Cristo (Mt 16,18), a que de modo único tem a promessa de sua assistência divina (Mt 28,20), orienta os fiéis a festejarem o dia dos natalícios de seus santos ao Céu, a lhes pedir auxílio junto de Deus e a se esforçarem para imitar as suas virtudes cristãs.

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