Bispos e novos movimentos: “Ir além das contraposições”

“Na época pós-conciliar, assistimos a um florescimento inesperado e explosivo de muitas dessas realidades, favorecendo também a difusão de uma reflexão sobre os carismas”

Bispos e novos movimentos Ir além das contraposições 16.06.16

© Antoine Mekary / ALETEIA

Um convite à “recíproca cooperação” entre bispos e novos movimentos ou agregações, superando “toda confrontação ou justaposição estéril”, está contido na carta Iuvenescit Ecclesia (A Igreja rejuvenesce), aprovada pelo Papa Francisco e publicada hoje pela Congregação para a Doutrina da Fé do cardeal Gerhard Ludwig Müller.

Um documento – para usar as palavras do teólogo Piero Coda, que participou da coletiva de imprensa de apresentação no Vaticano – que afunda as suas raízes no Concílio Vaticano II, mas assume um caráter de particular atualidade em um momento histórico no qual Joseph Ratzinger assumiu o nome de Bento de Núrsia, e o jesuíta Jorge Mario Bergoglio, que convida os católicos a uma renovada missionariedade, assumiu o do Pobrezinho de Assis, “sinais de uma inédita e promissora tomada de consciência – desde a cúpula da Igreja – da reciprocidade entre dons hierárquicos e dons carismáticos”.

“Na época pós-conciliar, assistimos a um florescimento inesperado e explosivo de muitas dessas realidades, favorecendo também a difusão de uma reflexão sobre os carismas, como nunca antes na história da Igreja”, disse na coletiva o cardeal Müller que, com o secretário do dicastério, o arcebispo Luis Ladaria, assinou esse documento dirigido aos bispos.

“O presente texto, que já chegou a uma fisionomia definitiva depois de tantos anos de reelaboração – o estudo começou no ano 2000 –, pretende, de fato, se inserir em tal consideração dos carismas, como momento de autoridade que traça algumas linhas fundamentais, para relançar, de modo correto e adequado, a sua reflexão. Em particular, pareceu necessário oferecer aos pastores e aos fiéis uma seguro e encorajadora consideração da relação entre esses dons, que avivaram a vida da Igreja, especialmente com o surgimento, no passado recente, dos ‘movimentos’ e das novas comunidades eclesiais. O objetivo do presente documento – destacou o purpurado alemão – é promover, através de uma profunda conscientização dos elementos essenciais relacionados a dons hierárquicos e carismáticos, e para além de toda contraposição ou justaposição estéril, uma ordenada comunhão, relação e sinergia deles, em vista de um renovado impulso missionário eclesial e daquela ‘conversão pastoral’, a que o Papa Francisco nos chama continuamente.”

O texto foi aprovado pelo Papa Francisco em uma audiência do dia 14 de março passado e foi assinado no dia 15 de maio de 2016, solenidade de Pentecostes.

A carta ressalta que “a antítese entre uma Igreja institucional de tipo judaico-cristã e uma Igreja carismática do tipo paulino, afirmada por certas interpretações eclesiológicas redutoras, não encontra na realidade um fundamento adequado nas passagens do Novo Testamento. Longe de situar os carismas de um lado e as realidades institucionais de outro, ou de opor uma Igreja ‘da caridade’ a uma Igreja ‘da instituição’, Paulo reúne em uma única lista aqueles que são portadores de carismas de autoridade e ensinamento, de carismas que beneficiam a vida comum da comunidade e de carisma mais clamorosos”.

Depois de citar o papas João Paulo II (“que cunhou o conceito de ‘coessencialidade’ entre dons da Igreja), Bento XVI e Francisco, “é possível, portanto – sublinha o documento –, reconhecer uma convergência do recente Magistério eclesial sobre a coessencialidade entre dons hierárquicos e carismáticos. Uma contraposição deles, assim como uma justaposição, seria sintoma de uma errônea ou insuficiente compreensão da ação do Espírito Santo na vida e na missão da Igreja”.

Nesse sentido, “o nascimento de eventuais tensões exige, por parte de todos, a práxis de uma caridade maior, em vista de uma comunhão e de uma unidade eclesiais cada vez mais profundas”.

No texto, além disso, ressalta-se que “o celibato, exigido aos presbíteros na venerável tradição latina, também está claramente na linha do dom carismático; ele não é primariamente funcional, mas ‘representa uma conformação especial ao estilo de vida do próprio Cristo’, em que se realiza a plena dedicação de si em referência à missão conferida mediante o sacramento da Ordem”.

É necessário “evitar que se conceba como contrapoder em relação aos bispos”, sublinhou, por sua parte, o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação dos Bispos. “O texto esclarece, teologicamente e a partir da Sagrada Escritura e da vida da Igreja, que é preciso integrar melhor a dimensão carismática, abraçando as novas formas e as formas antigas ou tradicionais”.

Para aqueles que se perguntavam se o Papa Francisco é carismático demais e muito pouco hierárquico, o cardeal canadense respondeu que o pontífice, “com o seu modo de ser pastor, ajuda a todos os bispos a serem mais afiados no discernimento, no acompanhamento e na acolhida, respondendo a uma necessidade da Igreja de seguir a realidade da fé, assim como ela é vivida nos nossos dias, com as dificuldades doutrinais, disciplinares, sacramentais”.

Com esse documento, a Congregação para a Doutrina da Fé – destacou por sua parte o Mons. Piero Coda, membro da Comissão Teológica Internacional – “mostra a qualidade de dicastério que oferece esclarecimentos teológicos que alimentam o caminho da Igreja: existe uma sinergia constitutiva no mistério da Igreja entre dons hierárquicos e a contínua, multiforme e variada irrupção carismática, que não pode ser codificada, porque está nas mãos do Espírito Santo e responde, de tempos em tempos, às necessidades e às reivindicações do povo de Deus, olhando para a humanidade inteira, para as suas feridas, pedidos e interrogações”.

O teólogo recordou um discurso de 1998, no qual o então cardeal Ratzinger falava daquelas “ondas de movimentos, que revalorizam continuamente o aspecto universalista da missão apostólica e a radicalidade do Evangelho, e, justamente por isso, servem para assegurar vitalidade e verdade espiritual às Igrejas locais”.

O Mons. Coda, por fim, citou o Pe. Divo Barsotti, místico florentino que desejava o surgimento na Igreja de um movimento religioso de inusitado “poder de amor”, que, segundo ele, “deve surgir a partir dos leigos. Bento e Francisco eram leigos. A tarefa da hierarquia, a quem cabe legislar, é de controle, porque a assistência divina, indubitável, preserva a Igreja de cair no erro, mas o movimento não é realizado pela hierarquia”.

Na época atual, concluiu, “talvez haja algo de inédito, e esse documento atesta isso: o Papa Ratzinger, que quis retomar o nome de Bento de Núrsia, e o Papa Bergoglio, filho espiritual de Santo Inácio, que – primeiro papa na história – assumiu o nome do Pobrezinho de Assis, talvez sejam sinais de uma inédita e promissora conscientização – a partir da cúpula da Igreja – da reciprocidade entre dons hierárquicos e dons carismáticos. É isso que o presente documento espera, em todos os níveis, para todo o Povo de Deus”.

Na coletiva de imprensa, Carmen Aparicio Valls, professora da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Gregoriana e membro da Instituição Teresiana, também ofereceu o seu testemunho.

A uma pergunta sobre a recente ideia, proposta pelo Papa Francisco, de uma comissão para estudar as diaconisas, o cardeal Müller se limitou a responder que se trata de um “tema histórico”, sobre o qual a Comissão Teológica Internacional refletiu há 10 anos e à qual ele mesmo já dedicou três livros.

Aleteia / Iacopo Scaramuzzi

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