O Bem Comum

Uma das características de nosso tempo é o individualismo. Promove-se, por muitos meios, a supervalorização de cada pessoa. Dominam, então, nas escolhas e decisões, o que agrada ao indivíduo ou o que corresponde às suas ideias e projetos. Quem tiver alguma dúvida quanto a isso, visite qualquer livraria e verifique a quantidade de livros de autoajuda que estão à disposição do leitor.

Há muito de positivo na valorização do ser humano e na defesa de seus direitos. Cada pessoa é única e especial, pois foi criada à imagem 874117_203145e semelhança de Deus. O problema, no entanto, nasce quando cada pessoa se coloca como critério e medida da verdade. A partir daí, cessam os valores objetivos; a verdade se torna subjetiva, pois passa a depender do que cada um “acha” ou gosta. As repercussões desse comportamento no campo moral são imensas; no campo religioso, são trágicas. Decisões importantes e valores incontestáveis passam a depender da decisão da maioria, na linha do “você decide”. Ora, as maiorias facilmente escolhem o que lhes foi introjetado de maneira sistemática pelos meios de comunicação social.

O individualismo no campo religioso tem como consequência o nascimento de um verdadeiro supermercado da fé: cada um busca nas várias propostas religiosas os pensamentos, as ideias, os ritos etc. que mais lhe agradam.  A “religião” passa a ser construída à imagem e semelhança do próprio fiel. Afinal, domina a ideia de que também a fé deve dar resposta aos gostos e desejos pessoais. O sucesso e a cura passam a ser vistos como sinais irrefutáveis da proteção do Senhor. Deus deixa de ser o Senhor que se revela e nos apresenta a sua vontade e passa a ser visto como aquele que realiza os desejos de cada um. Quem conhece a história dos romanos de dois mil anos atrás sabe a que estou me referindo: eles criaram deuses com os desejos e defeitos humanos. Em tal “religião” não há espaço para a Cruz, para o sacrifício, para o dom de si. Passam a dominar, sim, os gostos pessoais. Quanto aos outros – por exemplo, os pobres, os necessitados e os doentes – que busquem também as “bênçãos” do Senhor…

A resposta da Igreja para tais propostas é fundamentada na Palavra de Deus – e essa, além de dar um grande destaque ao valor que cada um de nós tem, ressalta a importância do bem comum, do bem de todos. O bem comum é o conjunto daquelas condições da vida social que permitem aos grupos e a seus membros atingirem, completa e diligentemente, a própria perfeição.

O bem comum comporta três elementos essenciais: (1º) o respeito pela pessoa como tal, pois o ser humano deve ter condições de realizar a sua vocação; (2º) a valorização do bem-estar e do desenvolvimento de cada grupo humano, a ponto de possibilitar que cada pessoa tenha acesso àquilo de que necessita para levar uma vida verdadeiramente humana; (3º) a garantia de se viver em paz, numa ordem justa, duradoura e segura. A partir desses princípios se compreende o papel do Estado: cabe-lhe defender e promover o bem comum da sociedade civil, dos cidadãos e dos organismos intermediários.

O bem comum possibilita a realização de cada ser humano – não uma realização egoísta, individualista, mas aquela que nasce da descoberta das próprias potencialidades e da disposição de usá-las para servir os demais. Quem já fez a experiência do voluntariado entende bem o que estou querendo acentuar. Fomos criados para o dom de nós mesmos; somente colaborando para o bem comum é que nós nos realizaremos.

Do individualismo nascem inúmeras ilhas na sociedade, na linha do “cada um por si”. Da procura do bem comum nascem a comunhão e a fraternidade; nasce, sobretudo, um mundo em que as pessoas descobrem continuamente novas razões para viver, esperar e se alegrar.

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

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