Educar para a virtude: o hábito de ser ético

ética

O desenvolvimento de hábitos corretos garante o surgimento das virtudes e o afastamento do vício. A “virtude é de natureza a praticar o melhor referente a prazeres e dores; o vício, o contrário” (Ética a Nicômaco. 1104b25).

Para Aristóteles, os preceitos morais não são frutos da instrução somente, mas sim do hábito.Quando o sujeito é impulsionado à virtude tem maior possibilidade de encontrar na retidão o sentido da própria existência. Portanto, a ética é inerente à condição humana. “É a respeito do que é mais difícil que sempre surgem arte e virtude, pois o bem é nestas condições melhor” (Ética a Nicômaco, 1105a5).

Encontrando a retidão, encontra-se o equilíbrio, que está na prudência. As atitudes humanas, nesse sentido, já não necessitam de controles externos, mas de sua própria escolha. Ser bom é uma condição da existência e não uma obrigação para cumprir as determinações externas. O Catecismo da Igreja Católica orienta:

Parágrafo 1784: Uma educação prudente ensina a virtude, preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos sentimentos de culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das faltas humanas. A educação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração.

É preciso trazer ao contexto do cotidiano escolar a reflexão sobre os preceitos morais. É igualmente necessário, apresentar a impossibilidade de instrução destes preceitos, somente como forma de conteúdos a serem aprendidos, seja no processo de formação de professores, seja em sua prática escolar. Como instrução, eles podem ser aprendidos pelas vias da cognição. No entanto, tornando-se hábito, não serão somente aprendidos, mas apreendidos. Jesus, ao lavar os pés dos apóstolos, ensinou com clareza dizendo:

Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também . (cf . Jo 13,12-15)

Todos nós que pretendemos educar precisamos dar testemunho, com nossa vida, nas grandes e pequenas ações, do que já apreendemos dos valores que promovem a dignidade humana. Esses valores devem ser inerentes ao nosso cotidiano, não mais vivenciados somente pela força das leis, das normas, da vigilância externa, mas por escolhas éticas. Neste sentido, ainda que não estejamos sob vigia externamente, saberemos o que devemos e o que não devemos fazer; conseguiremos discernir entre o bem e o mal, o certo e o errado, o joio do trigo. O Catecismo da Igreja Católica afirma:

Parágrafo 1969: A Nova Lei pratica os atos da religião – a esmola, a oração e o jejum -, ordenando-os ao “Pai que vê no segredo”, em contraste com o desejo “de ser visto pelos homens”. Sua oração é o “Pai-Nosso.”

Parágrafo 1970: A Lei evangélica comporta a opção decisiva entre “os dois caminhos” e a prática das palavras do Senhor; resume-se na regra de ouro: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a lei e os profetas” (Mt 7,12).

Toda a Lei evangélica se compendia no “mandamento novo” de Jesus, de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou.

“É naturalmente aceita a constatação de que estamos em um momento histórico onde a ética é fundamental, necessária à retomada do rumo perdido pela sociedade atua…”

É naturalmente aceita a constatação de que estamos em um momento histórico onde a ética é fundamental, necessária à retomada do rumo perdido pela sociedade atual, extrapolando a instância escolar: professores e alunos, cidadãos em geral, homens públicos em especial, todos devem reavaliar suas posturas éticas, sua conduta moral. A indisciplina escolar e a resposta a ela, proveniente das instituições; a violência urbana e os pequenos atos de corrupção cotidiana; o desrespeito pela coisa pública e o clima de impunidade generalizado; são múltiplas as consequências da ausência ética. O individualismo, por outro lado, tão presente nas relações da sociedade contemporânea, é indicado como um dos responsáveis por esta estrutura social. Elucida mais uma vez, o Catecismo da Igreja Católica:

Parágrafo 1740: O exercício da liberdade não implica o direito de dizer e fazer tudo. É falso pretender que “o homem, sujeito da liberdade, baste a si mesmo, tendo por fim a satisfação de seu próprio interesse no gozo dos bens terrenos. Por sua vez, as condições de ordem econômica e social, política e cultural requeridas para um justo exercício da liberdade são muitas vezes desprezadas e violadas. Estas situações de cegueira e injustiça prejudicam a vida moral e levam tanto os fortes como os fracos à tentação de pecar contra a caridade. Fugindo da lei moral, o homem prejudica sua própria liberdade, acorrenta-se a si mesmo, rompe a fraternidade com seus semelhantes e rebela-se contra a verdade divina.

Da mesma forma que é naturalmente aceita como problema a ausência da ética na sociedade, é também aceito o caminho para a solução deste problema: o aprendizado balizado pelo testemunho. É necessário que se ensine tais preceitos. O professor, parece ser a possibilidade, o instrumento capaz de apresentar esta solução, sendo ele um exemplo dessa vivência. Por esta razão, estes preceitos devem estar explícitos nos planos curriculares e nos documentos que orientam a Educação e devem voltar à sala de aula como objeto de estudo; portanto, de aprendizado, mas tendo à frente um referencial que testemunha a verdade do mesmo.

Joana Darc Venancio

Coordenadora do Pastoral da Diocese de Itaguaí/RJ

 

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