A comunhão ecumênica como caminho eucarístico

A divisão entre cristãos é um escândalo, uma ferida no próprio coração do Senhor. Jesus Cristo na sua oração sacerdotal mais profunda pediu que a sua Igreja se mantivesse unida (cf. Jo 17, 21). Por isso a 31 de outubro seria inapropriado falar de celebração, mas é necessário proclamar com alegria a graça de oferecer a Deus esta comemoração luterano-católica.

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Comemorar significa fazer memória de quanto aconteceu nestes cinco séculos nos quais reconhecemos com tristeza que muitas vezes nos apaixonamos pelo conflito. Mas é também necessário olhar com esperança para como nos últimos cinquenta anos – se tomarmos o concílio Vaticano II como referência – o Senhor nos chamou pelo nosso nome, cada um na sua confissão, para nos fazer apaixonar pela busca da comunhão. Comunhão que é união comum, um necessário caminhar juntos na riqueza da diversidade reconciliada, onde encontramos etapas teológicas fundamentais como a Declaração conjunta sobre a justificação, mas antes de tudo, onde nos reconhecemos num caminho de humildade, oração, paciência e promessa rumo à unidade visível do corpo de nosso Senhor.

É inevitável que a palavra «comunhão» faça referência para nós à eucaristia em comum, ao que o cardeal Walter Kasper chamou «sacramento da unidade». Hoje uma mesa espera por nós, a mesa do Senhor da unidade, a mesa da união sacramentada. Mas as mesas são preparadas com tempo e dedicação, para a mesa do Senhor com o Kairós e os carismas que ela requer. Retornemos por um momento às sagradas escrituras, cuja leitura conjunta contribuiu muito para este percurso ecumênico.

O apóstolo Paulo na sua primeira carta à Igreja de Corinto faz uma afirmação dramática sobre a celebração eucarística nessa comunidade: «Desse modo, quando vos reunis, já não é para comer a ceia do Senhor» (I Cor 11, 20). Havia duas questões a examinar, discernir e corrigir (cf. 11, 28-32) antes, para nivelar o caminho a fim de que na participação naquela celebração demonstrassem ser capazes de «reconhecer o corpo do Senhor» (11, 29).

Em primeiro lugar havia divisões (cf. 11, 18) nas quais diziam uns e outros «eu sou discípulo de Paulo; (…) eu, de Cefas» (1, 12). Como protestantes – com frequência seduzidos pela chave hermenêutica luterana em Romanos 1, 17 «O justo viverá pela fé» – lemos a Bíblia com os olhos de São Paulo em tensão com a percepção da centralidade ministerial da sucessão apostólica de Pedro em Roma.

Hoje felizmente estamos a realizar uma longa, difícil, mas espiritual busca conjunta rumo a uma leitura cristocêntrica e orante da palavra de Deus «para que não se desvirtue a cruz de Cristo» (I Cor 1, 17).

Em segundo lugar as assembleias e as refeições eram realizadas em casa, com frequência nas dos irmãos mais abastados que podiam oferecer um espaço mais amplo. Mas infelizmente criavam-se discriminações em relação aos pobres e aos excluídos da sociedade com os quais os ricos não partilhavam as refeições. São Paulo descreve assim este conflito: «Porquanto, mal vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição; e enquanto uns têm fome, outros se fartam» (I Cor 11, 21). Nesta refeição antes da celebração eucarística faltavam amor, piedade e misericórdia para com os necessitados, esvaziando assim de conteúdo espiritual a celebração principal. Neste contexto bíblico, parecem particularmente iluminadoras as palavras do Papa Francisco quando, num discurso recente a jovens luteranos, disse: «O testemunho que o mundo espera de nós é, sobretudo, tornar visível a misericórdia que Deus sente por nós através do serviço aos pobres, aos doentes, a quantos abandonaram a própria terra para procurar um futuro melhor para si e para os seus entes queridos. Ao nos colocar a serviço dos mais necessitados sentimos que estamos já unidos: é a misericórdia de Deus que nos une».

Rezemos a fim de que neste ano jubilar comemorativo, a distância geográfica existente entre Lund 2016 e Wittenberg 2017 seja estendida a todo o planeta com uma peregrinação conjunta que busca, aprende e se reconhece num mesmo Senhor, numa só fé e num só batismo (cf. Ef 4, 5). É necessário que, ao caminhar juntos, católicos e protestantes unidos na oração, «nos deixemos interpretar» pelos Evangelhos para obedecer ao apelo à unidade de nosso Senhor Jesus Cristo. É preciso que, de mãos dadas com o Deus da misericórdia, demos testemunho de verdadeira comunhão servindo as pessoas descartadas de um mundo que necessita de justiça e paz. Se dermos estes passos juntos, a mesa do Senhor que nos chama a permanecer unidos estará cada vez mais próxima, enquanto não chegar o tempo que o Cristo da eucaristia, e Senhor da história, estabeleceu.

L’Osservatore Romano/Marcelo Figueroa

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