A congruência é condição para quem pretende educar: O exemplo de Jesus

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Um animal é, por seu próprio instinto, tudo aquilo que pode ser; uma razão exterior a ele tomou por ele, antecipadamente, todos os cuidados necessários. Mas o homem tem necessidade de sua própria razão. Não tem instinto, e precisa formar por si mesmo o projeto de sua conduta. Entretanto, porque ele não tem a capacidade imediata de fazê-lo e vem ao mundo em estado bruto, outros devem fazê-lo em seu lugar. (Kant, Sobre a Pedagogia, p.12,1996) 

Se o homem, como afirma Kant, precisa adquirir algo que não pertence naturalmente a si próprio, compreende-se que necessita ser educado. Essa não é uma atividade simples. A Educação não se limita à aplicação de fórmulas. O próprio Kant afirma: “A educação é o maior e mais árduo problema que pode ser proposto aos homens”.

Não parece possível pensar em uma Educação que seja redutora em sua análise do que é o homem. A Educação é por sua inerente condição ação criadora que não se repete e nem se esgota, mas que se refaz pela ação, intervenção e criação do ser humano, pois o homem é sempre novo, único e singular na pluralidade social. É impossível prever como reagirá diante de cada estímulo, o que, a partir daí, fará de si mesmo e de seu mundo. Quem é o sujeito a ser educado? Esta questão sempre permanecerá aberta e de reflexões inesgotáveis. Jesus, ao lavar os pés dos Apóstolos na Última Ceia, disse:

“Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também”. (cf. João 13,12-15)

O gesto de Jesus nos interroga sobre a verdade de nossa congruência, que se traduz em tudo o que somos, pensamos e fazemos. Somos identificados como exemplos por aqueles que pretendemos educar?

“Somos identificados como exemplos por aqueles que pretendemos educar?”

Afirmar que o conhecimento que possuímos sobre o homem é suficiente para educá-lo significa fechar a porta para as interrogações, porque julgamos que nosso saber nos basta, ou porque o dogmatismo das teorias científicas nos conforta. Não nos parece possível formar alguém se não somos formados. Não nos parece possível educar se não somos exemplos:

“Formar pessoas demanda tempo e paciência, além de seriedade e dedicação. Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos sem capacidade de julgar, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos”. ( cf. Rousseau, Emílio, 1996, p. 10)

O medo do desconhecido provoca entre muitos educadores insegurança e insatisfação, pois esses buscam segurança e não têm condições de abandonar a zona de conforto para irem ao encontro do desvelamento de si e do desvelamento daquele que pretende educar. As teorias explicativas sobre os sentidos da Educação não dão conta de responder essas interrogações acerca do sujeito a ser educado.

A ausência da interrogação sobre o homem talvez seja o sintoma da incapacidade da Educação de formar plenamente. Não sabemos qual o sentido da ação educativa e onde ela deve chegar. O que pretendemos que o homem se torne quando buscamos educá-lo? O que está por traz do ocultamento da interrogação sobre o homem no âmbito da educação? Como pretender educá-lo sem interrogar sua condição humana? Não estaria o próprio homem sendo ocultado e não apenas a interrogação sobre ele?

“São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem. Da resposta a tais perguntas depende a orientação que se imprime à existência”. (cf. JOÃO PAULO II, Fides et Ratio, 1988, nº 1)

A busca pela verdade sobre si faz com que o homem avance nas interrogações sobre si, isto é, para a compreensão do seu próprio mistério. O homem experimenta a inquietação da busca.

Joana Darc Venancio

Coordenadora da Pastoral da Educação da Diocese de Itaguaí/RJ

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