Ritos e cerimônias da Igreja Católica: Saudades antecipadas da Pátria Celestial

A Santa Igreja, ao longo dos séculos, foi requintando seus ritos e cerimônias, propiciando ocasiões de consolo espiritual e de verdadeiros encontros com Deus.

Criado à imagem e semelhança de Deus, possuidor de um corpo material e uma alma espiritual, o homem é a mais complexa das criaturas. A integridade de sua natureza requer a união entre corpo e alma. Ele está, em consequência, submetido a todas as leis da matéria, tendendo, no entanto, a um ideal imaterial e superior.

A vida em sociedade e os ritos

Devido à sua racionalidade, o homem possui uma natureza eminentemente social. Por isso, desde os primeiros lampejos da razão, quando suas ideias começam a se desenvolver, desperta-se nele o desejo de trazê-las a lume, de comunicar-se com os outros e, nesse relacionamento com os demais, vão se modelando relevantes aspectos da sua personalidade.

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Para expor e comunicar aos semelhantes o que leva em seu próprio espírito, o ser humano se utiliza de sinais que podem ser naturais ou convencionais, verbais, gestuais ou por meio de representações gráficas. Estes, tornando-se múltiplos signos, vão constituindo ritos, de maior ou menor solenidade e elevação, formando em seu conjunto aquilo que costumamos chamar de etiqueta ou protocolo social.

A importância desse conjunto de signos é tal que certos autores chegam a afirmar: “o grupo expressa sua identidade sobretudo pelos ritos”.1 Com efeito, os atos do dia a dia de qualquer comunidade, aparentemente tão corriqueiros, revelam, quando analisados de forma correta, algo de grande valor para a sociedade e para cada indivíduo em particular.

Os ritos ordenam e hierarquizam o proceder do homem. Sem eles nossa natureza, corrompida pela queda original, perde suas referências mais imediatas e acaba por provocar neuroses, como as que atormentam muitas pessoas hoje.

Os antigos ritos religiosos

Se os homens criaram ritos e cerimônias para transmitir o seu pensamento e manifestar o seu interior aos outros, muito mais o fizeram para exteriorizar a reverência e veneração pelas coisas sagradas a que aspira todo coração humano.

Nos povos da Antiguidade, o culto tinha numerosas variações e modalidades, porém, todas elas compartilhavam um mesmo significado: a representação de uma ação divina, com vistas a conseguir um bem sagrado e glorificar o ser superior por eles cultuado.2 Alguns faziam isto de modo bastante complexo; outros, com simples atitudes como o gesto de unir as mãos.

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Dentre os povos antigos, o Deus verdadeiro escolheu um para Si, Israel (cf. Ex 6, 7), tornando suas ações as mais dignas e sublimes dentre todos os outros. Era desejo do Altíssimo falar com ele, “comunicar-lhe sua santa Lei, dar-lhe uma constituição religiosa, política e civil, constituí-lo em todos os aspectos povo de Deus e fortificá-lo, tão solidamente, para que fosse capaz de conservar, em meio ao mundo pagão, o sagrado tesouro da divina Revelação”.3

As Sagradas Escrituras mostram como o Senhor pedia aos israelitas que abandonassem os costumes pagãos e assimilassem os preceitos ensinados por seu Criador. Explica São Tomás de Aquino4 que os homens da Antiga Lei eram divididos entre aqueles que tendiam à idolatria e outros inclinados ao bem. Para conduzir tanto uns quanto outros pelo bom caminho, era necessário instituir diversos cerimoniais que afastassem os homens das práticas idolátricas e os instruíssem e aprimorassem em seu relacionamento com o Altíssimo.

No Novo Testamento

Na plenitude dos tempos, Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo trazer a Boa-nova, almejada há séculos, e levar a Lei à perfeição. Não veio Ele abolir a Antiga Lei (cf. Mt 5, 17). Quis, pelo contrário, cumprir com ritos vigentes entre o povo eleito, renovando-os e santificando-os.

Já nos seus primeiros dias de vida, quis Nosso Senhor submeter-Se ao ritual da circuncisão, signo da aliança feita por Deus com Abraão (cf. Gn 17, 10-12). Nele recebeu “o nome que está acima de todos os nomes” (Fl 2, 9): Jesus, que significa Salvador, já que Lhe “fora concedido este dom gratuito de salvar a todos os homens”.5 As gotas de seu precioso Sangue assim oferecidas foram prenúncio das que com tanta abundância mais tarde haveria de derramar em sua Paixão.

Outro cerimonial prescrito por Moisés e realizado na época de Jesus era que toda mulher, após ter dado à luz um filho, deveria se apresentar no Templo, aos quarenta dias, para purificar-se. Na ocasião oferecia ao sacerdote para o holocausto um cordeiro de um ano, o que simbolizava a união com Deus, e uma pomba como sacrifício pelo pecado. Caso a família não tivesse boas condições financeiras, a Lei mandava oferecer apenas duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro como sacrifício pelo pecado (cf. Lv 12, 8). E se o filho era primogênito, deveria ser consagrado ao Senhor (cf. Ex 13, 12).

A esta cerimônia quis também Se submeter Cristo, obedecendo mais uma vez à Lei, embora não houvesse motivo para tal. Sua Mãe havia concebido por obra do Espírito Santo e não se aplicava a Ela de nenhum modo a lei da purificação; e Ele, sendo o Senhor dos Céus e da Terra, jamais necessitaria resgate algum.

Podemos mencionar ainda a subida da Sagrada Família a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa, descrita por São Lucas. Tendo Jesus completado 12 anos, estava obrigado a acompanhar Maria e José nessa viagem, pois, ao atingir esta idade, todo jovem israelita se tornava “filho do preceito” ou “filho da lei”, sujeito às prescrições da Lei Mosaica, inclusive as mais pesadas, como o jejum e as peregrinações ao Templo.

Estes são alguns dos testemunhos conhecidos sobre a submissão do Salvador à Lei durante a sua infância. Entretanto, “ao avançar em idade, fazia obras mais perfeitas para mostrar-Se verdadeiro Homem, seja nas coisas que dizem respeito a Deus, seja naquelas que dizem respeito aos homens”.6

Ritos e cerimoniais nascidos da Santa Igreja

Para que os ritos instituídos por Nosso Senhor atingissem externamente o esplendor esperado, foi necessário um período de desenvolvimento e expansão, durante o qual a Igreja ampliou, explicitou e aprimorou o cerimonial dos Sacramentos, por Ele diretamente instituídos, e os demais atos litúrgicos.

Custódia nesta Terra dos sagrados mistérios do Redentor, a Esposa Mística de Cristo foi requintando ao longo dos séculos os ritos e celebrações solenes, propiciando ocasiões de consolo espiritual e de verdadeiros encontros com Deus. Não é outro o papel da beleza dos templos, da pulcritude dos paramentos e vestiduras litúrgicas e religiosas, da harmonia dos cânticos sacros, do jogo de luzes dos vitrais sobre a nuvem perfumada do incenso ou, ainda, da perfeição dos gestos calmos, seguros e compenetrados que devem ter os ministros do Senhor.

Mas não foi só isso. Excelente formadora das nações, foi a Santa Igreja espargindo o sublime aroma da elevação de alma e do amor à perfeição através de suas cerimônias, e impregnando toda a sociedade temporal. A ação benfeitora dos mosteiros moldou o Ocidente, produzindo frutos de santidade, espiritualidade e bons costumes característicos da Civilização Cristã.

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De fundamental importância é, pois, o cerimonial da Igreja na sacralização da sociedade. Pelos símbolos revestidos de beleza, ele transmite as verdades da Fé aos fiéis com mais eficácia do que a simples catequização doutrinária. É o que afirma o Papa Pio XI: “para instruir o povo nas coisas da Fé e atraí-lo, por meio delas, às íntimas alegrias do espírito, muito mais eficazes que os ensinamentos do Magistério Eclesiástico, por mais autorizados que sejam, são as festividades anuais dos sagrados mistérios”.7

Fonte de riqueza também para este mundo, nossa Terra de exílio, as cerimônias da Igreja nos ajudam, sobretudo, a ter saudades antecipadas da Pátria Celestial, do convívio eterno com o Criador.

Gaudium Press / Por Ir. Michelle Sangy, EP

(in Revista Arautos do Evangelho, Outubro/2016, n. 178, pp. 36 a 38)

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