A dimensão profética da virgindade e do celibato

Para compreender essa nova forma de vida e sua íntima razão de ser (e pelo menos uma vez na vida devemos esforçar-nos por compreendê-la, principalmente se a nossa forma de vida), temos de partir daqui, da motivação apresentada por Jesus: “por amor do Reino dos céus”. A natureza e a justificação da virgindade e do celibato dependem da própria natureza do Reino dos céus (“Reino dos céus” é a expressão que Mateus, como bom judeu, usa em vez de “Reino de Deus”, para evitar a menção direta de Deus; é, porém, a mesma coisa). Ora, o Reino de Deus tem uma característica que hoje costuma ser expressa numa fórmula bastante apropriada: “já” e “ainda não”. O Reino “já” está aqui, veio, está presente. O Reino dos céus, anuncia Jesus, está próximo, está em nosso meio. Em outro sentido, porém, o Reino dos céus ainda não veio, ainda deve vir, e por isso é que oramos: “Venha a nós o vosso Reino”.

Uma vez que o Reino dos céus já veio, uma vez que com Cristo a salvação final está agindo no mundo, então – é a consequência que nos interessa – então é possível que algumas pessoas, chamadas por Deus, escolham viver desde agora como se viverá na situação final do Reino. E como se vive na situação final do Reino? É o próprio Jesus quem o diz no Evangelho de Lucas: Os filhos deste mundo têm mulher ou marido; mas os que são considerados dignos de ter parte no outro mundo e na ressurreição dos mortos não têm mulher nem marido; pois não podem morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, tendo já ressuscitado” (Lc 20,34-36; veja também Mt 22,30).

Nisso está propriamente a dimensão profética da virgindade e do celibato pelo Reino. Esta forma de vida mostra, pela sua simples existência e sem precisar de palavras, qual será a condição final do homem, a que deve durar eternamente. É uma existência profética. No passado discutiu-se muito se a virgindade é um estado de vida mais perfeito que o matrimonio, e em que sentido. Crio que ontologicamente, isto é: por si mesma, não é um estado mais perfeito (cada um dos dois estados é mais perfeito para quem foi para ele chamado); é, porém, um estado escatologicamente mais adiantado, enquanto é mais semelhante ao estado definitivo para o qual todos caminhamos. “Já começastes a ser o que seremos”, escrevia São Cipriano às primeiras virgens cristãs (De habitu virginum, 22; PL 4,475).

Essa profecia, longe de se voltar contra os casados, é feita antes principalmente para eles e em seu favor. Recorda-lhes que o matrimônio é santo, belo, criado por Deus e remido por Cristo, é imagem das núpcias entre Cristo e a Igreja, mas… não é tudo. é uma estrutura que se prende a este mundo, sendo portanto transitória. Não existirá quando já não existir a morte. Quando, como dizia Jesus, já não se puder morrer, já não será preciso casar (veja Lc 20,36).

Aos casados a virgindade lembra o primado do espírito e de Deus. Recorda que Deus nos fez para ele e que, portanto, nosso coração estará sempre “insatisfeito” enquanto nele não encontrar repouso. Recorda também que não podemos fazer do matrimônio e da família um ídolo ao qual sacrificar tudo e todos, uma espécie de absoluto na vida. todos sabem como é fácil entrincheirar-se por detrás dos deveres de família (“tenho mulher e filhos”) para fugir das exigências radicais do Evangelho. E também como é fácil fazer de um bom matrimônio o ideal e o escopo supremo, tomando-o como medida para o sucesso da vida. E como o matrimônio é o primeiro a sofrer com essa indevida absolutização, sendo como que esmagado por expectativas desproporcionadas que jamais poderá satisfazer, por isso digo que a virgindade vem em socorro até mesmo dos casados. Ela liberta o matrimônio e cada um dos conjugues, da carga insuportável de ter de ser o Todo, ocupando o lugar de Deus. A relativização escatológica que a virgindade impõe ao matrimônio não lhe diminui a alegria, mas a preserva do desespero, abrindo-lhe também um horizonte para além da morte. Exatamente porque existe a eternidade e uma Jerusalém celeste é que os cônjuges que se amam sabem que sua comunhão não está destinada a acabar com este mundo que passa, dissolvendo-se no nada, mas poderá durar eternamente transfigurada e espiritualizada.

Partindo dessa característica profética da virgindade e do celibato, podemos compreender quando seja ambígua e falsa a tese segundo qual seria esse estado de vida contrária à natureza, impedindo ao homem e à mulher de serem plenamente eles mesmos, isto é, homem e mulher. Acabamos nos deixando impressionar pelo muito que se falou contra esse estado em nome da psicologia e da psicanálise. Sobre os jovens pesa terrivelmente essa dúvida, sendo um dos motivos que os podem impedir de dar resposta à vocação. Nem sempre se levou em conta que, baseando-se a ciência moderna essencialmente sobre uma visão materialista e ateia do homem, suas afirmações neste campo podem ter certo peso para quem não acredita na existência de Deus nem numa vida depois da morte, não tendo porém nenhum valor para quem acredita nessas coisas. Essa diferença foi considerada sem importância, quando de fato é decisiva. Com efeito, a virgindade tira seu sentido exatamente da existência de uma vida eterna e de uma vida de ressuscitados. É algo que vem do Espírito, aplicando-se-lhe o que São Paulo diz das coisas do Espírito de Deus: é loucura que ele e ele não o pode conhecer, pois é pelo Espírito que se aprecia isso”, isto é, à luz da fé (veja 1Cor 2,14). Esperar o contrário de uma pessoa de fé é uma loucura quase tão grande quanto a primeira.

A um amigo que, também ele, achava que escolher a castidade fosse colocar-se à margem da verdadeira vida, Paul Claudel respondeu com estas luminosas palavras: “Ainda vivemos no antigo preconceito romântico que a felicidade suprema, o grande interesse, o único romance da existência consistem em nossos relacionamentos com a mulher e nas satisfações dos sentidos assim conseguidas. Esquece-se apenas uma coisa: que a alma e o espírito são realidades igualmente fortes, tão exigentes quanto a carne – é até mais! – e que, se concedemos a essa tudo quanto exige, nós o fazemos em detrimento de outras alegrias, de outras regiões luminosas que nos ficarão para sempre fechadas. Esvaziamos um copo de mau vinho em qualquer taberna ou salão, esquecendo-nos desse mar virginal que outros contemplam ao nascer do sol” (J. Reière – P. Claudel, Correspondance, Paris 1923, p. 261s.).

A própria psicanálise, tão logo supera esse preconceito básico herdado de seu fundador e se abre à dimensão espiritual e eterna do homem, imediatamente redescobre o extraordinário valor da virgindade como sinal. Um dos primeiros e mais famoso discípulos de Freud afirmou: “O único cominho para alguém livrar-se do conflito humano é a renúncia total que leva a oferecer totalmente a própria vida como dom ao Sumo Poder… A verdadeira e heroica valorização da vida está acima do sexo, acima do outro, acima dos limites da religião particular, acima de outros artifícios que rebaixam a pessoa limitando-a, deixando-a fracionada na ambiguidade… Para atingir a estabilidade, a pessoa deve lançar seu olhar para além dos outros e de suas consolações, para além de todas as coisas deste mundo” (O. Rank, em E. Becker, II refuto della morte, Roma 1982, p. 229-231).

Podemos, porém, chegar à mesma conclusão pelo caminho ainda mais seguro, o da revelação, vendo como a virgindade e o celibato não renegam a natureza, mas apenas a realizam em um plano mais profundo. Para saber é o homem e que é “natural” para ele, o pensamento humano sempre se baseou na análise da sua natureza, entendendo como natureza – segundo o significado etimológico da palavra – aquilo que o homem é desde seu nascimento. Mas a Bíblia (que desconhece totalmente o conceito de natureza aplicado ao homem) baseia-se, pelo contrário, no conceito de vocação: o homem não é apenas aquilo que é por natureza, mas também aquilo que é chamado a ser mediante sua liberdade e na obediência à palavra de Deus. o homem perfeito é Jesus ressuscitado, o “segundo homem”, o “Adão definitivo” (veja 1Cor 15,45-47), como diziam os Santos Padres. Quanto mais uma pessoa se aproxima desse modelo de humanidade, tanto mais é humana, plenamente humana. Se existisse apenas a natureza, não haveria motivo válido para opor-se às tendências e aos impulsos naturais; acontece que existe também a vocação. Em certo sentido poderíamos dizer que o estado mais “natural” para o ser humano é exatamente a virgindade, pois que não somos “chamados” a viver num eterno relacionamento de casal, mas a viver num eterno relacionamento com Deus. Deus, não um partner humano, é que deverá ser para sempre o nosso “todo” (veja 1Cor 15,28).

Texto retirado do livro: Virgindade. Raniero Cantalamessa. Editora Santuário.

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