Religião se discute, sim

Derrubemos os tabus em que escoramos a nossa covardia e desonestidade intelectual

Quase toda vez que se publica um texto contendo alguma crítica pontual a alguma religião que não seja a católica, levantam-se tão instantânea quanto irracionalmente diversas variações da mesma falácia: “Religião não se discute”, “É preciso respeitar todas as religiões”, “Religião é assunto íntimo” etc.

(Curiosamente, esse dogma não costuma valer quando as críticas são contra o catolicismo; de quebra, ainda é válido acrescentar falácias adicionais, descontextualizando os clichês de sempre sobre a trindade Cruzadas-Inquisição-Pedofilia – três assuntos muito objetivos, que merecem séria discussão e que, porém, quase nunca são tratados com objetividade e raramente se discutem com a seriedade que merecem. Ao final deste artigo, sugiro links para quem quiser debater esses três temas com um pouco mais de honestidade intelectual – lamentavelmente, não costuma ser muita gente).

A questão é que religião se discute, sim, e que não necessariamente se devem respeitar quaisquer religiões pelo mero fato de serem religiões. Vale para elas e para os seus membros o que vale para todas as demais pessoas, físicas ou jurídicas: respeito não se pede; se merece.

Religião se discute, sim

Todo tabu e toda censura se discutem, inclusive este. Por que não se discutiria religião?

Não é preciso interpretar o termo “discutir” como sinônimo de brigar, ofender, atacar, agredir. Discutir também pode significar, simples e adultamente, debater, indagar, expor dúvidas, pedir esclarecimentos, apresentar argumentos concretos, explicar conteúdos, separar fatos de interpretações, corrigir confusões, desmentir manipulações, contextualizar acontecimentos, distinguir conceitos, definir termos, prestar contas, analisar, avaliar.

Aliás, nunca haverá entendimento entre os povos enquanto não se discutir religião em vez de se brigar e se calar por religião.

Respeito não se pede: se merece – e isto vale também para as religiões

Existem religiões, em pleno 2017, nas quais se praticam mutilações genitais, escravização explícita ou “sutil” de seres humanos, discriminação de grupos, casamentos forçados, abortos compulsórios, “vocações” impostas, ritos e determinações arbitrárias com base nas quais mulheres e crianças são violentadas, animais são torturados, pessoas são induzidas a se drogar, tratamentos médicos são proibidos, famílias são separadas, privacidades são suprimidas, manipulações são cometidas de modo sistêmico, dinheiro é extorquido mediante pressão psicológica, líderes são isentos de prestar contas, conceitos de obediência e fé são tergiversados para acobertar psicopatas…

Tão grave quanto: em muitos países, tudo isso ou grande parte disso é perpetrado em perfeito acordo com a legislação.

Fingiremos que abusos, torturas e mortes são respeitáveis só porque são praticados por religiões? Fingiremos que abusos, torturas e mortes são aceitáveis porque são legais nos respectivos países? Fingiremos que abusos, torturas e mortes não podem ser questionados porque são práticas “culturais” e “toda cultura deve ser respeitada”?

Já fingimos.

A nossa assim chamada “cultura ocidental” se especializou em fingir com ares de etiqueta. Não apoie os cotovelos na mesa de jantar. Não use meias brancas com sapato. Não questione uma religião que escraviza seres humanos. É deselegante.

Universidades, conglomerados de mídia, partidos políticos, movimentos culturais e muitos segmentos das próprias religiões nos transformaram em peritos na arte de desvirtuar os fatos da realidade para encaixá-los na conveniência ideológica, subjetiva e egocêntrica de cada momento.

Não conseguimos mais reconhecer a objetividade dos fatos e teimamos em mentir que tudo é relativo, absolutizando, com inevitável incoerência, o próprio relativismo. Em nome do politicamente correto, passamos a professar o dogma de que verdades objetivas, quando incômodas, devem ser omitidas por “respeito” aos mentirosos. E, para proteger egoísmos estarrecedores, prostituímos até a ciência que supostamente veneramos ao colocá-la a serviço das nossas mitologias, como no caso daquela biologia mágica segundo a qual uma vida humana em gestação não é uma vida humana em gestação até o preciso instante em que o bebê começa o seu terceiro mês de gestação – nem um milésimo de segundo antes. Recusamos a realidade a ponto de colocar a nossa racionalidade científica no patamar de uma cosmogonia suméria (e sem por isso corar de vergonha).

Esta insanidade criminosa extrapola o cultural e o religioso e se estende, como dez pragas egípcias, por toda a variedade dos âmbitos comportamentais no dia-a-dia – e adota, não por acaso, facetas de dogmatismo que tornam quase inócuas as mais fanáticas seitas proselitistas. É o que leva certas feministas, por exemplo, a bradarem que é seu “direito” despedaçar imagens de Nossa Senhora e enfiar crucifixos no seu órgão genital em plena praia de Copacabana ao mesmo tempo em que afirmam que não cabe a elas combater imposições da sharia contra mulheres no Iraque e na Síria por se tratar de prática “cultural” ou “religiosa” em que não devemos nos intrometer. A religião, diga-se de passagem, dá nome a esse tipo de zelo: hipocrisia.

Seria bem menos tortuoso para qualquer intelecto honesto reconhecer que todos os que pedem respeito devem merecê-lo e que tudo o que é discutível pode ser discutido.

Para quem quiser debater com mais objetividade a trindade Cruzadas-Inquisição-Pedofilia, sugiro os seguintes links:

Cruzadas, Inquisição, Pedofilia e seus clichês falsificados

Aleteia / por Francisco Vêneto

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