Caminho, Verdade e Vida

odos nós já ouvimos, se é que não lemos, a famosa frase de Jesus em São João 14:6 “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.” A segunda sentença foi e tem sido sistematicamente abusada por intolerantes de todos os matizes. É importante notar que embora eu critique esses exageros de fideísmo, existem outras passagens como a famosa de São João, na qual Jesus ora para que todos sejam um que tem sido, mais recentemente, abusada para instaurar uma espécie de relativismo que não poderia ser mais exógeno ao Evangelho.

Mas o objetivo deste texto é, na verdade, deter-se sobre a primeira sentença do trecho citado.

Um pouco de lógica

É certo ver aí uma das frases nas quais Jesus Cristo alega ser Deus. No entanto não é este o aspecto que gostaria de trabalhar e sim o de uma revelação implícita aí. Todos nós já vimos na escola a famosa relação “Se a=b e b=c então a=c”. Tenho certeza que os avançados em matemática e lógica poderiam tecer alguns comentários sobre essa formulação bem simples, mas ela descreve um bom número de eventos e, no contexto comunicativo, não foi direcionada para especialistas, mas para leigos em lógica – quando muito para diletantes se considerarmos o público de S. João e não o que ouvia ao Cristo quando ele enunciou a frase.

O ponto é que o texto nos diz que se Caminho=Jesus, Verdade=Jesus e Vida=Jesus, então Caminho, Verdade e Vida são todos o mesmo elemento. Pensemos nisso por um instante: a Verdade e a Vida são o mesmo objeto, a mesma coisa. Se afastar da Vida é viver em falsidade, viver em falsidade é se afastar da Vida, morrer um pouco. Não de forma metafórica, mas literal.

Vidas falsas

Tal conceito é assombroso. Quando eu minto, eu morro um pouco. Quando sou falso para com os outros ou até para comigo mesmo, estou cultivando minha própria morte de uma forma mais intensa do que se fumasse 30 pacotes de cigarro por dia. Aliás, muito pior do que isso.

Quando eu sou falso, eu estou fora da Verdade. Só que a Verdade e a Vida são a mesma coisa. Quando eu sou falso, eu estou fora da Vida. Já estou morto. Não é por outro motivo que Jesus também disse “Deixe que os mortos enterrem seus mortos” em São Lucas 9:60 e São Mateus 8:22.

Ele sabe que a imensa maioria das pessoas levam vidas falsas, cheias de insinceridade para consigo mesmas, para com o próximo e para com Deus. É o sujeito que seria bom advogado, mas seduzido pelo glamour do poeta boêmio, passa a querer viver de sua poesia ruim. Ou o contrário, o excelente poeta que ambicionando o status do advogado torna-se um defensor medíocre. É a mulher que vive negando a miséria de vida que tem com um marido lixo. É a pessoa que acha que tem que ser campeã em tudo e sempre quando no fundo tudo que ela queria é um pouco de paz. É o político que se ilude dizendo para si mesmo que a vida cercada de mentiras e desonestidade é que é “vida” só porque está em meio a riquezas e cercado de pessoas-parasitas que querem partilhar disso. É a pessoa que sacrifica sua liberdade por segurança. É o escravo de suas compulsões e impulsos mórbidos sejam sexuais ou não que mente para si mesmo dizendo que isso é “viver intensamente cada segundo”, que ser mais “mulher” ou mais “homem” é tratar o sexo oposto como lixo. Enfim é construir significados para si ao invés de simplesmente entender O Significado da Vida.

«Eu quero ser um menino de verdade»

De forma geral, as pessoas subestimam os contos infantis. Pensam que são apenas estórias bonitinhas, cujo valor está exclusivamente nisso mesmo: são bonitinhas. Têm o mesmo valor da decoração de palhaços ou florzinhas do quarto da criança, desprovidos de sentido mais profundo do que marcar aquele “serzinho” como uma criança. Penso que estão errados quanto a isso. De forma geral o “conto infantil” nada mais é que o antigo conto fantástico pasteurizado. A presença do mágico é tida como “coisa de criança”, mas na verdade o que ocorre é que esses contos expressam questões profundas através de uma realidade flexível.

Como disse Chesterton contamos estórias de rios em que corre ouro líquido apenas para nos lembrar de como nos maravilhamos quando vimos um rio de água pela primeira vez e como a fluidez da água, então, nos parecia tão estranha e maravilhosa quanto uma suposta fluidez do ouro.

Falamos de dragões porque isso nos lembra a primeira vez que vimos elefantes e leões. Esse estupor maravilhado diante da realidade é sufocado e soterrado com o passar dos anos pelas banalidades do dia-a-dia. Mas foi o próprio Cristo quem disse: “Se não vos tornardes como criancinhas, não entrarão no Reino”. Recuperar esse sentimento é fundamental para a salvação. E nada melhor que os contos fantásticos para isso.

Todo o parágrafo anterior foi para explicar porque o conto do Pinóquio representa o que falava sobre “vidas falsas”. Pinóquio não é “de verdade”. Ele não tem vida, ele vive na mentira, ele não segue o caminho para o qual é constantemente re-convocado pelo Grilo. A maioria de nós segue o caminho oposto do Pinóquio. Nascemos “de verdade” e vamos nos tornando marionetes ao longo da vida, deixando que outras pessoas carismáticas ou não, governos e políticas guiem nossos movimentos. Nos vendemos barato como, em Crônicas de Nárnia diz a Feiticeira para o sátiro sobre o Edmundo: “Ele te vendeu em troca de docinhos”. E assim nos tornamos, ainda por cima, marionetes com orelhas de burro. Mas deixarmos de ser “meninos e meninas de verdade”

para nos tornarmos marionetes significa também deixarmos de ser seres vivos para nos tornarmos algo semelhante a um pedaço morto de madeira, apenas esculpido em forma humana. Nos afastamos da Verdade de nossas vidas e assim nos afastamos da Vida em si mesma. Nos tornamos mentirosos. E morremos com isso, nosso corpo animado, nada além de uma carcaça de carne, com um espírito que não se destrói mas também não morre. Zumbis. E se nos tornamos aquele tipo especial de cadáver ambulante que ainda é capaz de destruir a Vida dos que A possuem, aí somos a própria expressão do mito do vampiro. Somos uma marionete especialista em transformar “meninos de verdade” em marionetes também.

O chifre falso do unicórnio real

No desenho “O Último Unicórnio”, baseado no livro de mesmo nome, a último unicórnio do mundo sofre com o fato de que ninguém mais é capaz de vê-la. Todos que olham para ela a vêem sem chifre. Vêem um cavalo normal. São cegos para tudo que ela possui de particular, único, belo, mágico e maravilhoso. As pessoas nessa estória são igualitários, filhos da Revolução Francesa e da época moderna apesar da estória se passar em mundo medieval. Olham para um ser mítico e não conseguem enxergar nada além do que ele possui de cotidiano, banal e de comum, igual aos demais. Um dos momentos mais comoventes do filme é quando uma bruxa velha captura a unicórnio e lhe aplica um chifre falso para expô-la em seu circo de bizarrices. As pessoas vêm, olham para “um cavalo com chifre de papelão” e, acreditando no embuste, pensam ver um unicórnio. É um momento denso. A menina chora de emoção ao ser enganada pelo chifre falso, por causa da incapacidade dela de ver o unicórnio de verdade que está a sua frente. É uma síntese de nossa era: cegos para a verdade, nos emocionamos com os simulacros de verdade pelo amor natural que sentimos pela verdade. Revelado o simulacro, nossa raiva nos torna ainda mais cegos para a verdade que continua a nossa volta e em nós, e mais vulneráveis a novos simulacros. A unicórnio encontra então um aliado no mago Schmendrick que lhe diz: “Eu posso vê-la, porque eu também sou de verdade. Como você.” É a explicação para o problema. As pessoas não vêem nada que seja verdadeiro, porque elas mesmas não são de verdade, porque não estão na Verdade, estão afastadas. São os “mortos” de Jesus, os “bonecos de madeira” do conto do Pinóquio, os “robôs” dos contos de ficção-científica, os homens de lata sem coração, os zumbis modernos vagando em busca do “cérebro” que eles mesmos já não possuem. É impressionante como algumas pessoas imaginam uma vida “espiritual” como algo insosso. Jesus mesmo disse “Vocês são o sal da terra. Se o sal não dá sabor não serve para nada”. A vida espiritual nada mais é que o processo, precisamente de abandonar a condição de ser sem vida, sem sabor, para se tornar o “tempero do mundo” o que dá sabor à vida.

Temos todos que nos tornar homens e mulheres “de verdade”.

Vida peregrina

É aí que entra, penso, a primeira parte da afirmação e que, por muito tempo, foi a mais misteriosa para mim. O que é “O Caminho”? Ora, o Caminho é nossa história pessoal rumo à plenitude e a Deus. Somos peregrinos por natureza. É nossa vocação (todos temos uma, não apenas sacerdotes e ministros), nosso chamamento, aquilo que Deus nos criou para sermos e fazer. É nosso Verdadeiro eu, nossa sintonia no Universo. Diversos filmes, livros e estórias falam do “Caminho”.

Temos o herói ou heroína normalmente dedicados a alguma atividade que ou consideram perfeitamente insossa, ou, se gostam, gostam apenas porque nunca experimentaram nada melhor ou estão acomodados. Surge então algum personagem ou evento que representa, por assim dizer, a “Voz”, algo que os tira daquela “normalidade” e os chama para a “aventura” que não precisa ser uma aventura propriamente dita; vide o filme baseado em fatos reais “Óleos de Lorenzo”, no qual os pais do menino que dá nome ao filme descobrem que ele possui uma grave doença degenerativa do sistema nervoso. A partir daí inicia-se a luta dos pais para a busca de uma cura. Os médicos, no entanto, logo os desencantam explicando, repetidas vezes que a doença age rapidamente e que certamente não há cura com a tecnologia atual. O pai do rapaz então, que não possuía nenhuma formação científica, passa a estudar biomedicina e bioquímica por si só. Não descobre a cura mas descobre um remédio que paralisa o progresso da doença. Era tarde demais para Lorenzo, mas para centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo, o remédio tornou-se a garantia de uma vida normal, pois detectando-se a doença em seus estágios iniciais, o remédio impede que ela progrida levando à morte. Os pais de Lorenzo são os heróis. A tragédia que se lhes abateu é a “Voz”. A doença era o “dragão”, o “monstro”, que arrebatou-lhes o filho, mas foi detido, salvando a vida de milhares, e, contando todos que serão ainda salvos ao longo da história da humanidade, milhões de pessoas. Seu Caminho era a luta para destruir o poder letal do “monstro”. E foi cumprido.

Felizmente nem todo Caminho possui tais contornos de tragédia. E, no contexto deste artigo, aprendemos que esse Caminho é ele mesmo a própria Verdade. E é a Vida. Quem se afasta do seu próprio Caminho, está longe da Verdade, da Vida, de Deus, das pessoas e de si mesmo. A novidade Cristã, neste contexto é precisamente que este Caminho-Verdade-Vida que se expressa de forma única em cada um de nós, nasceu de uma mulher, viveu como nós e, se chocando de frente com a Morte, destruiu-a por ser mais forte, libertando-nos do jugo dela.

Agora cabe a nós escolhermos como passaremos o resto da Eternidade que nos foi concedida e na qual, de certa forma, já vivemos. Viveremos buscando O Caminho universal para que possamos vivenciar sua expressão particular em nossas vidas, buscando viver A Vida para usufruir a expressão particular Dela em nós, buscando A Verdade, para que nós mesmos sejamos “pessoas de Verdade” ou seremos bonecos de madeira, mortos, máquinas de carne que se movimentam por aí da mesma forma que robôs? A escolha é toda e só nossa.

Eclesia / por Fábio Lins

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: